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Vaqueiro meu irmão em tempos de modernidade
09/09/2019 10:46 em Notícias

Estudo realizado pela Fundação Joaquim Nabuco verificou que o uso da tecnologia facilita o trabalho dos vaqueiros e contribui para a convivência com as mudanças climáticas e sociais.

Por todo o Nordeste, os vaqueiros estão fazendo uso da tecnologia. Assim a cada dia está nascendo mais "vaqueiros motoqueiros" ou motoqueiros vaqueiros, aumenta a motorização rural, usado como mecanismo facilitador do trabalho.

Exemplo são as trocas de patas pelas rodas. O progresso levou para o interior a tecnologia. As motos passaram a fazer as tarefas dos jumentos e cavalos. E o resultado dessa mudança de vida está na beira das estradas. Animais abandonados, sem destino.

Para o antropólogo baiano Roberto Albergaria, o motivo para o abandono do jegue, por exemplo, é mais simbólico que econômico. 'O fim do jumento é o fim do mundo agrário tradicional, com seu ritmo lento. Agora é o ritmo da moto, da cidade".

Os tempos são outros. Existe algumas localidades que é possível encontrar vaqueiro trabalhando com tecnologia de ponta, benefício é motivação. No vai e vem acelerado dos vaqueiros, o dia parece pequeno. Assim é a rotina de quem vive na fazenda. E a imensidão de terra não pode mais ser chamada de lugar isolado. A roça não parou no tempo.

Novas palavras que pareciam distantes do mundo rural, exemplo usb, bluetooth, computador agora fazem parte do contidiano rural.

Nova realidade dos vaqueiros contrasta com as antigas histórias. Se precisar de uma corridinha até o curral, o cavalo continua sendo o principal meio de transporte. Mas não estranhe se aparecer um vaqueiro motorizado e se precisar chama o veterinário pelo número do celular e até pelo watshapp.

Ser Vaqueiro é uma profissão sofrida, muitos afirmam, mas que se mantém há  quatro séculos, sempre se renovando pelo sangue. A devoção está presente no dia a dia dos vaqueiros que desbravam o sertão. Outro elemento alinhado é a fé. Acostumados a receber, como contrapartida pelo trabalho, um lugar para morar e um espaço para plantar, os vaqueiros desde 2013 estão, aos poucos, habituando-se aos novos direitos estabelecidos pela lei que regulamentou e reconheceu a profissão.

De acordo com a lei, vaqueiro é o empregado “apto a realizar práticas relacionadas ao trato, ao manejo e à condução de espécies animais”. Entre elas, bois, búfalos, cavalos, mulas, cabras e  ovelhas. 

O texto define também as atividades dos profissionais: fazer  ordenha de vacas, alimentar os bichos, preparar e treinar animais para eventos culturais e socioesportivos e auxiliar nos cuidados necessários à reprodução das espécies.

“A grande maioria dos vaqueiros não possui carteira assinada, muitos trabalham por diária, alguns em troca de um lugar para morar e um pedaço de terra para plantar. A realidade no campo é muito diferente. A regulamentação,infelizmente não é cumprida e as relações arcaicas de trabalho não foram superadas. Os patrôes continuam sem assinar a carteira".

Aclamado por Euclides da Cunha, no clássico Os Sertões, o vaqueiro é, na sua forma forte de encarar as mazelas do sertão, os longos períodos de seca que culminam com as intensas movimentações de gado pelas regiões mais inóspitas da caatinga e do cerrado nordestino, a representação de um povo lutador, que vive pela superação das dificuldades que o clima e o solo oferecem.

Aclamado pelos sertanejos, portanto, símbolo da garra, destemor, força e fé, de um povo, que tem nos seus aboios, a voz das alegrias e dores da lida com o gado e as preces de quem vive no campo.

O vaqueiro, o gado e o aboio são elementos socioculturais balizantes para entendermos o projeto de conquista colonial nas terras do Norte do Brasil realizado pelo Estado Imperial Português a partir do século XVII e influente na contemporaneidade.

O vaqueiro é a figura central de uma fazenda. Seu trabalho é árduo e contínuo. Passa grande parte do tempo montado a cavalo percorrendo a fazenda, fiscalizando as pastagens, as cercas e as aguadas (fonte, rio, lagoa ou qualquer manancial existente numa propriedade agrícola).

O vaqueiro está presente até os dias atuais em solenidades e festividades. Criado a partir da palavra em latim empregada ao gado, vacum, "vaqueiro", em geral, é o termo empregado para identificar os indivíduos que trabalham no manejo do gado. No Brasil, o surgimento dessa profissão se dá a partir da instalação das fazendas no Interior do Nordeste, no século XVII.

Ao longo dos anos, por herança, o vaqueiro se mantém, mas o trabalho vai mudando. Se antes costurava seu chapéu e gibão com couro de bode, no início do século XX estes acessórios são vendidos agora em "Casas de Couro". O aboio que acompanhava o gado tangido, dá lugar ao ronco da moto, que hoje cumpre o papel do cavalo. Se por um lado, as vaquejadas inspiram pelo dinheiro e fama.

"É uma profissão sofrida", muitos afirmam, mas que se mantém há quatro séculos, sempre se renovando pelo sangue. Todas estas gerações e todos os tipos de vaqueiros, do esportista ao afamado, do trabalhador ao aspirante, se encontram anualmente nas Missas do Vaqueiro, entre elas a tradicional Missa do Vaqueiro Serrita e de Petroli.

FÉ: Realizada anualmente, a Missa do Vaqueiro tem em suas origens uma história que foi consagrada na voz de Luiz Gonzaga: a de Raimundo Jacó, um vaqueiro habilidoso na arte de aboiar. Reza a lenda que seu canto atraía o gado, mas atraía também a inveja dos colegas de profissão, fato que culminou em sua morte numa emboscada. O fiel companheiro do vaqueiro na aboiada, um cachorro, velou o corpo do dono dia e noite, até morrer de fome e sede.

A história de coragem se transformou num mito do Sertão e três anos após o trágico fim, sua vida foi imortalizada pelo canto de  Luiz Gonzaga. O Rei do Baião, que era primo de Jacó, transformou  “A Morte do Vaqueiro” numa das mais conhecidas e emocionantes canções brasileiras. Mas Gonzaga queria mais, e se juntou a João Câncio dos Santos – padre que ao ver a pobreza e as injustiças cometidas contra os sertanejos passou a pregar a palavra de Deus vestido de gibão – para fazer do caso de Jacó o mote para o ofício do vaqueiro e a celebração da coragem.

Assim, em 1970, o Sítio Lajes, em Serrita, onde o corpo de Jacó foi encontrado, recebe a primeira Missa do Vaqueiro. De acordo com a tradição, o início da celebração é dado com uma procissão de mil vaqueiros a cavalo, que levam, em honras a Raimundo Jacó, oferendas – como chapéu de couro, chicotes e berrantes – ao altar de pedra rústica em formato de ferradura.

A missa, uma verdadeira romaria de renovação da fé, acontece sempre ao ar livre e se assemelha bastante aos rituais católicos, porém contando com toques especiais que caracterizam o evento: no lugar da hóstia, os vaqueiros comungam com farinha de mandioca, rapadura e queijo, todos montados a cavalo.

Jornalista Ney Vital

 

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